“Para os povos indígenas são apenas falácias. Isso é notório. Falas de políticos, falas de autoridades. Isso dos três poderes, Executivo, Legislativo e Judiciário, que tem esse tom de apaziguar os problemas que para nós não serve.” A fala do procurador jurídico da Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), foi durante entrevista aos jornalistas Álvaro Corado e Paula Litaiff no programa Boa Noite Amazônia da TV Onda Digital. O desabafo vem justamente após um ano da morte de Dom e Bruno, mortos porque Bruno combatia a pesca ilegal em área indígena. Junto ao desabafo, um alerta de que pouca coisa mudou.
Durante a entrevista Álvaro questionou o indígena que vive no local sobre mudanças, já que muitos políticos de esquerda usaram em seu discurso a desestruturação da pauta ambiental no Governo Bolsonaro. Yura se mostrou firme em sua fala, exigente como deve, alguém que conhece os direitos universais dos povos indígenas.
“Nós moramos naquela região. Temos um sentimento pela terra. E tudo que acontece que afronta a segurança dos povos indígenas, nos afeta de forma direta, clara, e é dolorido isso. Para aqueles que tem o poder e que exercem esse poder, poderiam fazer muito mais. É necessário sair do mundo das falácias e de que apoio as povos indígenas para o mundo e trazer na prática mesmo, ações diretas, concretas, a longo prazo, inclusive fomentando a restruturação da Funai, a implementação de um escritório ou de uma base do Ibama em Tabatinga, como tinha anteriormente, reforçando com um orçamento justo para que a gente possa mudar esse cenário”, disse Yura.
A Justiça, assim como em outros estados, segue lenta no Brasil. O caso Dom e Bruno, passado um ano, diante de tantas provas concretas, e diante dos holofotes da mídia, ainda está sendo julgado.
Três pessoas foram denunciadas à Justiça Federal por envolvimento no crime e na ocultação dos corpos: Amarildo da Costa Oliveira, Oseney da Costa Oliveira e Jefferson da Silva Lima. Eles alegaram legítima defesa, em depoimento à Justiça, em maio.
A Polícia Federal (PF) também indiciou outras pessoas, entre elas dois ex-dirigentes da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), por dolo eventual, ao não garantir a segurança de seus servidores na região.
A PF investiga ainda Rubén Dario da Silva Villar, conhecido como Colômbia, que, suspeita-se, tenha sido o mandante do crime. Segundo a PF, a suspeita é que ele tenha planejado os assassinatos devido a desavenças com Bruno, já que o servidor licenciado da Funai atuava contra a pesca ilegal na região. Um inquérito da PF contra a pesca ilegal também foi encerrado com o indiciamento de dez pessoas.
“É um ano dolorido, de saudade, de revolta, mas que nós precisamos caminhar. Com a coragem e a semente que foi implantada por Bruno naquela região.” disse Yura na entrevista.
‘Não mudou nada’
Segundo Yura Maruba, desde o acontecimento trágico até hoje, nada mudou na região. As ações a favor dos Povos Indígenas não acontece da forma que eles desejam. Para Yura, o estado não tem poder nenhum na tríplice fronteira. “Precisamos de ações que mudem esse cenário. Porque se não entra e sai governo e as falas são as mesmas de proteção, mas de fato concreto é, que nós continuamos sofrendo e quiçá, daqui há algum tempo, estaremos a frente da mídia relatando outros problemas ou outros assassinatos que podem ser evitados nesse momento”
Yura criticou ainda a ida de pessoas do poder executivo e do judiciário na região. “Por incrível que pareça, parece que as autoridades gostam de fazer histórias para livros, visitando, como foi o caso da presidente do STF, algo inédito na história do Brasil, o representando do ministério da Justiça chegando em Atalaia do Norte. Uma comitiva imensa, com promessas de fazer um projeto de estado e não de governo e quando você cobra, não é bem assim. Então isso não pode acontecer.”, disse Yura.
Mortes em 2022
Em 2022, mais de 8 mil pessoas foram vítimas de crimes violentos letais intencionais na região da Amazônia Legal, ou seja, vítimas de homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de mortes. Com isso, a taxa de mortes por 100 mil habitantes nos estados que compõem a Amazônia Legal chegou a 26,7, índice bem superior à média nacional, que foi de 19 mortes a cada 100 mil habitantes em 2022. Isso é o que revela a nota técnica Segurança Pública e Crime Organizado na Amazônia Legal, divulgada nesta segunda-feira (5) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública

Segundo a nota técnica, desde 2012 a Amazônia Legal possui média de violência letal superior à média nacional. O estado do Amazonas, por exemplo, é o que apresenta a maior taxa de crimes violentos letais intencionais no ano passado, com um índice de 33,1 mortes a cada 100 mil habitantes, totalizando 1.432 assassinatos no ano passado.
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