Guerra enfraquece Abbas e moradores da Cisjordânia já apoiam abertamente Hamas

Moradores da Cisjordânia já apoiam abertamente o Hamas após a guerra que enfraqueceu o presidente Abbas.
Redação O Poder
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As crianças brincam com réplicas de fuzis de brinquedo nas ruas danificadas por retroescavadeiras israelenses. Elas se escondem atrás dos destroços do que, até o dia anterior, era um monumento em homenagem à repórter da rede Al Jazeera, Shireen Abu Akleh, que foi morta pelas forças de Israel neste mesmo campo de refugiados de Jenin, no norte da Cisjordânia, o maior território palestino. Marcas de tiros e vestígios de sangue ainda estão visíveis após a operação da última sexta-feira (27), na qual dois combatentes do Jihad Islâmico foram mortos enquanto tentavam impedir a entrada das forças israelenses.

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Mais cedo, jovens armados com fuzis reais lideraram o cortejo fúnebre que percorreu o centro da cidade de Jenin e as estreitas ruas do campo de refugiados com os corpos dos dois homens. Adultos disparavam tiros para o ar. As crianças, com suas armas de plástico, imitavam o gesto. Centenas de pessoas acompanhavam o cortejo. Em meio aos tiros, cânticos religiosos e lágrimas, todos compartilham a ideia de que não há mais espaço para o diálogo e as negociações com Israel. “[Mahmoud] Abbas, o presidente da Autoridade Palestina, é ineficaz, passou anos tentando negociar e buscar apoio internacional, enquanto nós estamos perdendo nossas terras e morrendo todos os dias”, afirma Abu Ahmad (nome fictício), pai de um dos meninos com réplicas de armas.

Desde o ataque do grupo Hamas a Israel, que resultou na morte de cerca de 1.400 pessoas e provocou uma violenta resposta de Tel Aviv em Gaza, com mais de 7.400 mortos, as críticas abertas a Abbas se espalharam de maneira sem precedentes na Cisjordânia. Em Ramallah, o centro político e administrativo da Autoridade Palestina, protestos contra Abbas, mas em apoio ao partido Fatah ao qual ele está ligado, eclodiram na semana passada.

No início, foram reprimidos pelas forças de segurança locais, mas agora ocorrem com frequência, com bandeiras do Hamas e do Jihad Islâmico tremulando pelas ruas da cidade e adornando as cabeças dos palestinos que pedem uma atitude mais assertiva em relação a Israel. “Nós alertamos a comunidade internacional que, com o aumento da pressão sobre os palestinos, facções armadas que apoiam uma relação conflituosa ganhariam apoio na Cisjordânia”, afirma Sabri Saidam, vice-secretário-geral do Fatah, em declaração à Folha. O Fatah, partido fundado pelo líder histórico palestino Yasser Arafat (1929-2004), é dominante entre várias facções políticas que compõem a Organização para a Libertação da Palestina e é o partido oficial que controla a Cisjordânia.

Em 2006, o Fatah perdeu as eleições legislativas para o Hamas, que assumiu o controle da Faixa de Gaza. Os dois grupos são importantes rivais políticos, e até recentemente, a atuação do Hamas na Cisjordânia era combatida pelas forças de segurança da Autoridade Palestina.

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