Lideranças Mura criticam atuação de ONGs nas aldeias indígenas de Autazes

Lideranças Mura denunciam atuação de ONGs que não beneficiam comunidades em Autazes.
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“Acho que as ONGs querem que o índio viva no mato, seja vulnerável. Quanto mais vulneráveis, mais milhões são arrecadados em nossos nomes”. A declaração é do tuxaua Ediel Mura, que participou do 33º episódio da 4ª temporada do programa Conversa Política. Durante a entrevista, o representante indígena criticou a atuação de Organizações não Governamentais (ONGs) nas aldeias da região.

A equipe do programa de entrevistas, comandado por Álvaro Corado, foi até à aldeia Terra Preta de Josefa, situada na região florestal do município. Ediel usou a ocasião para afirmar que ONGs recebem dinheiro do poder público em nome dos indígenas, embora os membros das aldeias não vejam progresso no desenvolvimento da infraestrutura das comunidades locais.

“Essas ONGs que falam que nos representam não foram colocadas por nós. Milhões estão sendo investidos no povo Mura, sofrido. Essa é a minha fala e a de todos. A gente não pediu para eles falarem por nós. Nós queremos ser protagonistas da nossa própria história.  Se tem recurso, que chegue diretamente para nós. Não queremos intermediador, alguém que fale por nós. Não somos mais tutelados pela FUNAI, por ONG nenhuma. Nosso povo já sofreu demais. Existem muitos falando em nosso nome. A gente sabe disso. Só chega até nós aquela miséria, o último pedaço da pizza. Se tem recurso, que nós mesmos possamos captar”, disse.

Segundo Kleber Mura, membro da liderança indígena de Autazes, os representantes das 36 comunidades nunca foram abordados por membros do poder público para participarem de decisões políticas referentes às aldeias e ao município de Autazes.

Kleber afirmou, ainda, que deseja projetos governamentais que permitam às comunidades indígenas de Autazes um crescimento rumo à independência do estado. “Nem todas as aldeias têm água potável, atendimento de saúde de qualidade. Nossa comunidade fica vulnerável”, disse.

Para ilustrar as afirmações, o representante indígena citou um caso em que um membro de uma das aldeias foi mordido por uma cobra popularmente conhecida como surucucu-pico-de-jaca. Devido à falta de meios de transporte eficientes que liguem as comunidades indígenas ao centro de Autazes, a vítima do animal morreu no meio do deslocamento à cidade, ainda segundo Kleber.

“Antigamente, não podíamos nem dizer que éramos indígenas, senão sofríamos preconceito. Uma senhora indígena de nossa comunidade já foi forçada a levantar de um banco de ônibus e ceder lugar à outra pessoa, em Autazes, só pelo fato de ser indígena. Estamos cercados de discriminação”, declarou.

Ediel disse, em relação às aldeias indígenas de Autazes: “são comunidades simples, mas que querem se desenvolver. Querem hospitais e educação de qualidade. O índio quer acompanhar a evolução do mundo”. O tuxaua enxerga a possibilidade de exploração de potássio na região como uma oportunidade de melhoria de renda para a população local.

Configuração social

Em Autazes, o povo Mura divide-se em 36 comunidades. Em cada uma das aldeias, é escolhido um líder denominado tuxaua.

Além do tuxaua, elege-se uma comissão composta por seis pessoas que representam cada aldeia. Existem reuniões mensais das comunidades com o fim de tomar decisões com impacto coletivo.

Autazes possui uma das maiores jazidas de potássio do mundo. Há anos, luta em processos judiciais objetivando o direito de explorar a riqueza mineral importante ao agronegócio.

Em setembro, lideranças indígenas do município deslocaram-se à sede do governo do Amazonas, onde foram recebidos pelo governador Wilson Lima. Participaram da reunião representantes da Potássio do Brasil, empresa que busca autorização junto ao poder público para explorar potássio em Autazes.

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