Após a repercussão de denúncias envolvendo uma licitação no valor de R$ 3,3 milhões para contratação de serviços gráficos pela Prefeitura de Santo Antônio do Içá, no interior do Amazonas, o prefeito do município, Walder Costa, conhecido como Cecéu (MDB), gravou um áudio com ataques pessoais e ameaças contra o vereador Andry Lasmar.
O contrato foi firmado com a empresa Lotus Representante Comercial LTDA e publicado no Diário Oficial dos Municípios na última sexta-feira (2). O site O Poder teve acesso ao documento e divulgou a informação no dia 11 de janeiro. A empresa venceu o Pregão Eletrônico nº 90029/2025 e ficará responsável pelo fornecimento de materiais gráficos, incluindo carimbos e camisetas personalizadas, destinados às secretarias municipais de Saúde e Educação.

Áudio com ameaças amplia repercussão
Depois da divulgação do contrato, o prefeito Cecéu se pronunciou por meio de um áudio que passou a circular em grupos de mensagens. No conteúdo, ele faz críticas diretas ao vereador Andry Lasmar, autor das cobranças públicas, e profere declarações interpretadas como ameaças.
“Mas ele já está merecendo pegar umas pauladaszinhas… é bom ele ter cuidado aí”, afirmou o prefeito em um dos trechos do áudio. Em outro momento, Cecéu atacou a atuação do parlamentar e tentou desqualificar as críticas feitas à licitação.
O prefeito também afirmou que o valor de R$ 3,3 milhões representa apenas o teto de uma licitação válida por um ano, com diversos itens, e que isso não significa que todo o montante será necessariamente utilizado. Segundo ele, a prefeitura adquire os materiais conforme a demanda das secretarias, podendo utilizar apenas parte do valor licitado.
Ainda no áudio, Cecéu destacou ações da gestão, como o pagamento de recursos do Fundeb, incluindo o rateio entre servidores da educação, e afirmou que as críticas não consideram os esforços da administração municipal.
O tom agressivo do pronunciamento, no entanto, chamou atenção e ampliou ainda mais a repercussão do caso no município.
Vereador critica autoritarismo e fala em ameaça
Em resposta, o vereador Andry Lasmar se manifestou publicamente e disse ter ficado surpreso tanto com o valor do contrato quanto com o conteúdo do áudio divulgado pelo prefeito.
Segundo o parlamentar, o montante de R$ 3,3 milhões é incompatível com a realidade financeira de Santo Antônio do Içá, especialmente diante das dificuldades enfrentadas nas áreas da saúde e da educação. Ele também comparou o valor da licitação com o abono do Fundeb pago aos profissionais da educação, que, segundo ele, foi inferior ao de municípios com população menor.
Lasmar relembrou ainda que a atual administração já enfrentou questionamentos de órgãos de controle, incluindo a devolução de recursos do Fundeb após o uso indevido para pagamento de estruturas de eventos, como palcos e sonorização.
O vereador disse que o discurso do prefeito foi interpretado como autoritário e afirmou que houve extrapolação ao partir para ataques pessoais e ameaças físicas. Segundo ele, sua atuação se limita ao dever constitucional de fiscalizar o uso do dinheiro público e dar transparência aos atos da administração.
Apesar da gravidade das declarações, Lasmar afirmou esperar uma retratação por parte do prefeito e disse que, até o momento, não pretende judicializar o caso, embora juristas já tenham sugerido a adoção de medidas legais.
Falta de transparência e histórico de contratos elevados
Apesar do valor expressivo, o extrato do contrato não detalha a quantidade de itens nem os preços unitários, o que dificulta a análise da razoabilidade do gasto e levanta questionamentos sobre a transparência da contratação.
A Lotus Representante Comercial LTDA tem sede no bairro Coroado, zona Leste de Manaus, e possui como atividade principal registrada o comércio atacadista de livros, jornais e outras publicações. De acordo com dados da Receita Federal, a empresa possui capital social de R$ 1,3 milhão e é administrada por Carlos Fábio Lira Sampaio.
A gestão do prefeito Cecéu já esteve envolvida em outras contratações de alto valor que chamaram a atenção da opinião pública e de órgãos de fiscalização. Em 2021, o Ministério Público do Amazonas recomendou o pagamento do 13º salário atrasado de servidores da educação referente ao ano anterior.
Nos anos seguintes, a prefeitura firmou contratos milionários para obras de pavimentação, construção de estádio municipal e realização de eventos, incluindo a contratação de shows artísticos por valores elevados durante comemorações oficiais.