O almoço que colocou 2028 na mesa: Renato Júnior reúne Omar Aziz, Eduardo Braga e 36 vereadores

O que um almoço em uma churrascaria de Manaus pode dizer sobre os próximos passos da política amazonense?
Redação O Poder
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Sentaram à mesa o prefeito Renato Júnior, o governador eleito Omar Aziz, o senador Eduardo Braga e 36 vereadores da Câmara Municipal. Na versão oficial, a pauta foi investimento, obras e saúde, com destaque para a parceria entre prefeitura e governo estadual para reduzir as filas do Sisreg. Nos bastidores, porém, a conversa é outra. Fontes ouvidas apontam que o encontro foi, acima de tudo, um recado de posicionamento. Primeiro ponto. Renato Júnior constrói uma relação direta com os dois nomes mais pesados do tabuleiro local. Omar assume o governo em janeiro. Braga segue no Senado, com a rodagem e a influência de quem sabe abrir porta em Brasília. Isso dá ao prefeito uma condição que David Almeida não teve na eleição municipal anterior: um aliado no comando do Estado e outro na articulação federal. Não é pouca coisa.

E não é aproximação de ocasião. Omar e Braga participaram da construção política que sustentou a reeleição de David. Renato teve papel relevante nos bastidores daquela composição e foi mantido na chapa, mesmo com a pressão por outras indicações. Na eleição estadual, trabalhou para melhorar o desempenho de David na capital, num cenário em que Omar largava na frente e Roberto Cidade reunia uma estrutura considerável. Existe crédito acumulado dos dois lados. A fotografia tem história por trás. Agora, o que mais chamou atenção: os vereadores. 36 dos 41 compareceram. É um número que impressiona e mostra capacidade de articulação do prefeito dentro da Casa, justamente quando a Câmara se prepara para escolher o próximo presidente. A eleição da Mesa Diretora será o primeiro teste real.

Parte dos vereadores também está de saída, porque assumirá mandato na Assembleia Legislativa, o que mexe com a composição de forças. É aí que Renato terá de provar que presença no almoço vira voto na votação. Falemos das ausências, que dizem tanto quanto as presenças. Os 4 vereadores do PL ficaram de fora. Nos bastidores, a informação é que nem convite receberam. Não é detalhe. O gesto vem na esteira do confronto entre Alessandra Campêlo, eleita vice-governadora, e o deputado federal eleito Sargento Salazar, no debate da TV. Só que nem todo vereador do PL tem o mesmo envolvimento naquele episódio, nem a mesma relação com o prefeito. Deixar a bancada inteira de fora reforça a percepção de que o desgaste entre os grupos é real e profundo. Também não apareceram José Ricardo e Rodrigo Guedes, que mantêm postura crítica à gestão. Ou seja, maioria expressiva não significa unanimidade. A oposição existe, tem voz, e o prefeito vai precisar administrar divergências dentro da própria Câmara. Em Brasília, outro movimento merece atenção. Com Omar no governo, a primeira suplente, Cheila Moreira, do PT, deve assumir a vaga no Senado. Braga, reeleito, ganha espaço extra na representação amazonense no Congresso, e a possibilidade de ele assumir a coordenação da bancada federal entra no radar. O desenho que se forma é curioso: Omar no comando do Executivo estadual, Braga na articulação política e orçamentária na capital federal. Renato Júnior pode se beneficiar dessa interlocução.

Mas convém separar articulação de resultado. Reunir 36 vereadores não resolve a presidência da Câmara. Estar ao lado de Omar e Braga não garante reeleição a ninguém. O prefeito ganhou uma oportunidade, e junto vem uma responsabilidade maior. O eleitor de 2028 não vai votar por causa de foto em churrascaria. Vai cobrar saúde funcionando, obra entregue, mobilidade e serviço público que responda aos problemas de Manaus. Minha análise é esta: o almoço foi demonstração de força, mas também o primeiro retrato das fronteiras da articulação de Renato. Omar precisa organizar o governo. Braga precisa ampliar sua influência em Brasília.

Renato precisa consolidar a base na Câmara e entregar resultado na prefeitura. São interesses que hoje convergem, mas que não têm garantia de seguir juntos até 2028. E é exatamente nesse ponto que a política começa a ficar interessante. O jogo de 2028 já foi servido à mesa. Falta saber quem terá fôlego para continuar sentado nela.

Por: Davidson Cavalcante

Carregar Comentários