TEIMOSA E ABUSADA: O RETRATO DA MULHER EMPREENDEDORA PÓS 40

Mulher supera incêndio e se reinventa após os 40 anos para sustentar a família no campo.
Redação O Poder
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Eliana me atendeu com o pato no fogo. Enquanto preparava o almoço, foi contando, entre pausas e gargalhas, um pouco da história de superação dela. Era um domingo e eu liguei pra saber mais sobre uma mulher que depois dos 40 anos e com filhos criados, ainda tinha que sustentar a família com a força do trabalho na roça. Filha de produtores rurais da área ribeirinha de Manacapuru, região metropolitana de Manaus, saiu da comunidade em que vivia com os pais aos 14 anos e foi estudar no município. Concluiu o curso técnico de contabilidade e foi a primeira mulher a presidir a cooperativa agrícola da cidade. Eliana casou, teve filhos.

Tudo caminhava bem até que uma tragédia ousou interromper os planos da jovem mulher. A virada radical na vida veio após um incêndio. Em 2013, o fogo destruiu a sede da cooperativa. Máquinas, equipamentos, mudas, sonhos…tudo virou cinza e ela teve que recomeçar.

Depois de muito sofrimento, ela encontrou uma alternativa. “Lutei muito pela cooperativa e fiquei desnorteada com o incêndio. Como já havia comprado um terreno na região de Acajatuba, onde eu já plantava maracujá, investi nisso. Tive que me reinventar como gestora e mulher. Foi um período difícil, mas que lembro com orgulho”, diz com a voz embargada.

Mesmo sem condições de conseguir empréstimos, ela procurou a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) e trocou o maracujá pelo guaraná. “A maioria das pessoas têm medo do novo, só que eu amo desafios. Meu marido ficou resistente à época e não me apoiou. Ele plantava pimenta de cheiro em um pedaço do terreno e eu precisei do espaço para começar o cultivo. Ficou chateado, mas entendeu. Depois que ele constatou que o negócio ia bem, mudou de ideia. Eu costumo dizer que ele é a força e eu sou a direção. Ele diz que sem a minha direção ele não sobrevive”, conta ela entre risos.

Eliana se autodefine como “teimosa e abusada”. E ela sabia que para conseguir os objetivos precisava de audácia e conhecimento. Procurou o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE-AM) e buscou capacitação. Fez cursos, viajou para introduzir novas culturas ao plantio do guaraná e de outros frutos. Venceu. As 200 mudas lá do começo, deram vida a uma nova cooperativa que ajuda no sustento de 15 funcionários, que já receberam do SEBRAE, treinamento para empreender na área da gastronomia. “Eu sempre acreditei que sozinha a gente pode correr mais rápido, mas juntos podemos ir muito mais longe. O Sebrae sempre me apoiou e pegou na minha mão. Ajudou a criar a logomarca e a registrar a minha empresa. Capacitou meus cooperados e agora posso atender outras mulheres que, como eu, buscam empreender”, conta, ainda mexendo a panela do almoço. Com o guaraná, Eliana Medeiro (sem S mesmo), 52 anos, dois filhos e quatro netos, dá conta de um viveiro de mudas e atende outros produtores, gerando emprego e renda. Ela dispõe de equipamentos, tecnologia e inovação para contribuir com a melhoria da mão de obra, que ainda é escassa.

Além da experiência, Eliana coleciona reconhecimento e prêmios. Formada atualmente em Gestão Pública, conquistou o segundo lugar no prêmio “Mulher Empreendedora” promovido pelo SEBRAE em 2023. Ela também festeja os 25 anos de casamento e o prato do almoço que deu certo e não queimou, apesar da entrevista.

Siga Eliana nas redes sociais. Ela mostra a receita do pato ensopado no TikTok.

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