Na iminência de perder o monopólio da coleta de lixo em Porto Velho, a Marquise Ambiental, por meio da concessionária EcoRondônia, recebeu nesta semana vereadores da capital em uma visita institucional que levantou suspeitas de lobby político. O encontro, articulado no momento em que a empresa depende de uma liminar judicial para manter-se no setor, expôs a tentativa de influenciar a Câmara Municipal e preservar um domínio que já dura mais de três décadas.
Participaram da reunião os executivos Thiago Levy (diretor comercial da Marquise Ambiental), Emiliano Marinho (gerente comercial da EcoRondônia), Márcio Fábio (gerente da Marquise em Fortaleza) e Klauber Carvalho (gerente operacional da EcoRondônia). Do lado político, estiveram presentes os vereadores Thiago Tezzari (PSDB), Wanoel Chaves Martins (PSD), Edimilson Dourado Gomes (União), Gilber Rocha Merces – Dr. Gilber (PL), Nilton de Souza Melo (PSDB) e Everaldo Alves Fogaça (PSD), integrantes da Comissão Especial de Fiscalização da Transição da Coleta de Lixo.
A empresa sustenta que uma liminar judicial garante a continuidade da Parceria Público-Privada (PPP) firmada em 2021, mesmo após o prefeito Léo Moraes e o Tribunal de Contas do Estado (TCE-RO) homologarem um contrato emergencial com outra companhia. “Temos confiança de que a Justiça assegurará a continuidade da PPP e reafirmamos nosso compromisso com Porto Velho”, declarou a concessionária.
O contrato original previa um investimento global de R$ 2,15 bilhões ao longo de 20 anos, com aporte inicial de R$ 180 milhões em infraestrutura. Porém, a EcoRondônia admite ter aplicado apenas R$ 50 milhões até agora. Além disso, relatório do TCE-RO identificou indícios de sobrepreço de R$ 31 milhões por ano, equivalente a R$ 2,6 milhões a mais por mês, levando o tribunal a limitar os repasses mensais à empresa em R$ 3,25 milhões até a conclusão da auditoria.
As falhas não param aí. Obras previstas em contrato, como estações de transbordo, uma Central de Tratamento de Resíduos (CTR) e sistemas modernos de triagem e captação de biogás, seguem inacabadas. O TCE já aplicou multas ao ex-prefeito Hildon Chaves (R$ 81 mil) e ao ex-secretário de Serviços Básicos (R$ 64,8 mil), além de declarar a nulidade do contrato por irregularidades insanáveis.
Mesmo assim, a Marquise continua operando em Porto Velho graças a uma liminar judicial. Para críticos, as visitas parlamentares não passam de um movimento estratégico da empresa para prolongar um reinado de quase 30 anos em meio a denúncias de superfaturamento, descumprimento contratual e disputas jurídicas que se arrastam.
O que está em jogo?
Contrato bilionário de 20 anos.
Denúncias de sobrepreço de R$ 31 milhões/ano.
Obras estruturantes não entregues.
Nulidade do contrato original pelo TCE.
Liminar judicial que mantém a empresa ativa.
Contratos emergenciais contestados.
No centro desse impasse está a população de Porto Velho, que depende de um serviço essencial transformado em alvo de disputas judiciais, políticas e milionárias.