Uma fiscalização do Ministério Público Federal (MPF) revelou que a crise de saúde na Terra Indígena Yanomami ainda está longe de ser superada. Na comunidade Koribi, na região do Alto Catrimani, 29 indígenas foram encontrados em meio a casos de malária, doenças respiratórias, verminose e leishmaniose.
A situação foi classificada pelo MPF como de “grave deterioração” das condições de saúde. Durante a fiscalização, realizada em fevereiro deste ano, moradores relataram a ausência prolongada de equipes de atendimento. Uma criança com suspeita de leishmaniose precisou ser removida para o Centro de Saúde do Surucucu.
O caso expõe uma contradição na assistência aos Yanomami: enquanto o Governo Federal divulga números que apontam melhora nos principais indicadores de saúde, comunidades mais isoladas continuam relatando dificuldade para receber atendimento básico.
Dados divulgados pelo próprio Ministério da Saúde nessa segunda-feira (24) mostram que, no primeiro semestre de 2026, foram registrados 6,8 mil casos de malária no território Yanomami. Embora o número represente uma queda de 50,6% em relação ao mesmo período de 2023, a quantidade ainda evidencia a dimensão do problema.
A pasta também informou que houve redução de 29,5% no número geral de mortes, de 224 no primeiro semestre de 2023 para 158 nos primeiros seis meses de 2026. As mortes por desnutrição caíram 75,7% e não houve registro de óbitos por malária no período.
Mas os avanços nos números não significam que o atendimento tenha chegado a todas as comunidades.
No caso de Koribi, o próprio MPF aponta falhas na execução da assistência. O DSEI Yanomami apresentou um plano de atendimento, mas, segundo o órgão, o documento não veio acompanhado da comprovação solicitada e previa ações condicionadas a questões logísticas e operacionais. Também não havia informação sobre execução das ações após abril de 2026.
A responsabilidade pela assistência à saúde indígena é do Governo Federal, por meio do Ministério da Saúde e do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (DSEI-Yanomami). O próprio Ministério reconheceu que entre 2019 e 2022 houve forte deterioração da assistência, com subnotificação de doenças e mortes.
Em julho deste ano, relatório aprovado pelo Senado também apontou que, apesar da redução do garimpo ilegal, os Yanomami ainda enfrentam vulnerabilidades no acesso à saúde, alimentação, segurança e outras políticas públicas.
Uma crise que não terminou
Os dados recentes mostram que houve investimentos e melhora em alguns indicadores. O Ministério da Saúde afirma ter ampliado o efetivo de profissionais no território de 690, em 2023, para 1.855, em 2025, além de aumentar os atendimentos e a testagem para malária.
O problema é que os resultados gerais não eliminam situações de abandono em comunidades onde uma equipe de saúde pode demorar semanas ou meses para chegar.
É justamente essa distância entre os números oficiais e a realidade encontrada em campo que agora será acompanhada pelo MPF. O órgão abriu procedimento para monitorar permanentemente a assistência prestada à comunidade Koribi e cobrar informações dos responsáveis.
A situação deixa uma pergunta que permanece sem resposta: se os recursos, equipes e ações anunciados pelo Governo Federal estão chegando ao território, por que comunidades Yanomami ainda precisam esperar pela fiscalização do Ministério Público para receber atendimento diante de doenças já conhecidas e tratáveis ?