Na manhã da última sexta-feira (14), representantes do povo Munduruku interditaram a entrada principal da COP30, em Belém, em um ato de forte contestação às narrativas ambientais defendidas no evento. O protesto, carregado de críticas e denúncias, buscou expor o contraste entre os discursos oficiais e a realidade vivida nas terras indígenas.
As lideranças afirmaram que, enquanto autoridades e empresários participam de debates e registram imagens defendendo “sustentabilidade” e “bioeconomia”, suas comunidades continuam enfrentando contaminação por mercúrio, falta de serviços básicos e o avanço de grandes empreendimentos que impactam diretamente seus territórios, como portos, hidrovias, ferrovias e a expansão do garimpo.
Durante o ato, uma mulher Munduruku fez um pronunciamento contundente, criticando o uso político da imagem dos povos indígenas e cobrando ações concretas:
“Ninguém entra e ninguém sai. Aqui não é lugar de selfie. Nosso corpo está no centro das decisões feitas aqui dentro. […] Chega de usarem nossa imagem para vender sustentabilidade enquanto nossa floresta é destruída, nossos rios estão contaminados e nossas crianças adoecem.”
As lideranças também exigiram que o presidente Lula fosse até o local para dialogar diretamente com o povo indígena, ressaltando que o governo mantém conversas com chefes de Estado, mas não dedica a mesma atenção a quem vive e protege a floresta “Não queremos mais ninguém passando por aqui enquanto Lula não vier nos ouvir. Ele fala com líderes mundiais, mas precisa falar com a gente, aqui no chão do Pará.”
O bloqueio chamou atenção para a insatisfação crescente com o que os indígenas classificam como “vitrine ambiental” do evento. Para o povo Munduruku, a participação na COP30 não tem relação com fotos ou discursos, mas com a defesa dos seus territórios e a exigência de que suas vozes sejam ouvidas sem filtros, sem silenciamentos e sem uso simbólico.
Leia mais: Aldo Rebelo chama COP30 de “fracasso político” e acusa governo Lula de abandonar a Amazônia