A política brasileira é fértil em reviravoltas, mas o Cabo Daciolo parece empenhado em elevar esse conceito a um novo patamar. Após uma passagem efusiva pelo Amazonas, onde selou um compromisso de “amor” com o partido Solidariedade e declarou-se pré-candidato ao Senado pelo Estado, o ex-deputado surpreendeu o cenário nacional ao anunciar, nesta sexta-feira (3), sua filiação ao Mobiliza (antigo PMN) para disputar, novamente, a Presidência da República.
Há menos de duas semanas, Daciolo estava em solo manauara. Em eventos que reuniram lideranças religiosas e políticos locais, ele justificou sua vinda como uma resposta ao “clamor do povo” e aos mais de 31 mil votos que recebeu no Estado em 2018, mesmo sem ter feito campanha presencial na época.
Sua agenda incluiu uma viagem emblemática pela BR-319. Ao enfrentar os buracos e o isolamento da rodovia que liga Manaus a Porto Velho, Daciolo utilizou a precariedade da via como palanque, prometendo lutar pela interligação dos 62 municípios do Amazonas. O Solidariedade, que o recebeu de braços abertos, estava disposto a apostar em um nome de fora (natural de Santa Catarina e com base no Rio de Janeiro) para oxigenar a disputa majoritária no estado.
O cenário mudou drasticamente em questão de dias. A confirmação da filiação ao Mobiliza e a retomada do projeto presidencial esvaziam, de imediato, a tese de “domicílio eleitoral afetivo” no Amazonas.
Segundo o especialista político, Luiz Carlos Marques, a manobra de Daciolo levanta questionamentos sobre a consistência de seu projeto político para a Região Norte.
“Ao usar o Amazonas como plataforma de visibilidade para logo em seguida retomar o plano nacional, Daciolo corre o risco de ser visto como um ‘turista eleitoral’ pelas lideranças que investiram capital político em sua recepção”
Por outro lado, sua figura transcende a lógica racional. Daciolo opera na esfera do simbólico e do religioso. Para seus seguidores, a mudança de partido e de cargo não é uma quebra de palavra, mas uma “mudança de direção espiritual”.
“Resta saber como o Solidariedade-AM e o eleitorado local, que viu o candidato prometer amor à terra e sofrer nos buracos da 319, reagirão a esse “tchau” precoce em direção ao Planalto”.