Se tivesse vencido as eleições, Roberto Cidade diria que herdou um “Estado Sobrecarregado”?

Também é preciso responder pelo que não fiscalizou e pela situação financeira do Estado que está entregando a Omar Aziz.
Redação O Poder
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

O governador diz que recebeu um orçamento comprometido, mas sustentou até agosto que as contas estavam sólidas. Aliado de Wilson Lima e presidente da Assembleia Legislativa do Amazonas por três mandatos, Cidade ajudou a sustentar politicamente o governo anterior e agora precisa explicar a contradição entre o discurso de ontem e o diagnóstico de hoje. Não basta jogar a conta no colo do antecessor. Também é preciso responder pelo que não fiscalizou e pela situação financeira do Estado que está entregando a Omar Aziz.

Existe uma pergunta que considero indispensável fazer a Roberto Cidade: se tivesse chegado ao segundo turno e vencido as eleições de 2026, ele teria reconhecido publicamente que recebeu um Estado com dificuldades fiscais, receita comprometida e limitações para manter investimentos e honrar compromissos financeiros? A questão não é apenas retórica. Ela ganha importância diante das declarações feitas pelo próprio governador interino durante reunião do Conselho de Desenvolvimento do Estado do Amazonas (Codam), quando abordou as dificuldades financeiras da administração estadual. Se o diagnóstico é de um Estado financeiramente pressionado, com capacidade de investimento comprometida e obrigações acumuladas, é necessário explicar como se chegou a essa situação e, principalmente, qual é a responsabilidade de quem participou da condução política desse governo. Roberto Cidade assumiu o Executivo em uma eleição indireta, em circunstâncias excepcionais, mas não chegou de fora da estrutura governamental. Era presidente da Assembleia Legislativa, aliado de Wilson Lima e um dos principais integrantes da base política que sustentou os oito anos de administração. Portanto, não se pode tratar sua passagem pelo governo como se ele fosse um gestor surpreendido por problemas que desconhecia completamente. Oito anos de governo, três mandatos na presidência da Aleam e uma pergunta sobre fiscalização. Existe um aspecto político que não pode ser retirado dessa discussão: Roberto Cidade não foi apenas um aliado de Wilson Lima. Foi também presidente da Assembleia Legislativa por três mandatos consecutivos, instituição que tem entre suas principais atribuições fiscalizar o Poder Executivo. A relação entre os dois foi construída politicamente e teve consequências na composição do poder estadual. Quando Wilson Lima e Tadeu de Souza renunciaram, em abril de 2026, Roberto Cidade assumiu interinamente o governo. Em 4 de maio, foi eleito pela Assembleia, por unanimidade, para completar o mandato até janeiro de 2027. A operação sucessória ocorreu depois da saída simultânea do governador e do vice, que pretendiam disputar as eleições. É verdade que Cidade recebeu um mandato-tampão e teve pouco tempo para executar mudanças estruturais. Mas esse argumento não pode ser utilizado para apagar sua participação na estrutura política que sustentou o governo durante quase oito anos. Há uma diferença entre não ter tempo para reorganizar uma administração e não ter responsabilidade política sobre o funcionamento dessa administração. Cidade conhecia os bastidores, conhecia os secretários, conhecia a estrutura administrativa e participava das articulações que garantiam sustentação ao governo na Assembleia. Se agora afirma que encontrou uma máquina pública sobrecarregada, precisa explicar por que a Assembleia, sob sua presidência, não conseguiu exercer uma fiscalização mais efetiva sobre a gestão que produziu esse cenário. A pergunta é incômoda, mas necessária: onde estava o presidente da Assembleia quando os problemas que hoje são apresentados como herança começaram a se acumular? O orçamento de 2027 revela um problema que precisa ser explicado A proposta orçamentária encaminhada pelo governo Roberto Cidade à Assembleia Legislativa para 2027 também merece atenção. O projeto prevê aproximadamente R$ 37,285 bilhões, considerando os investimentos das empresas estatais. O montante representa uma redução de R$ 768,3 milhões em relação ao orçamento inicialmente aprovado para 2026.

Nos orçamentos Fiscal e da Seguridade Social, a previsão é de R$ 36,887 bilhões. Portanto, é importante distinguir esse valor do orçamento total. O governo justifica a redução principalmente pela ausência de receitas extraordinárias registradas em 2026 e por ajustes relacionados a créditos tributários de ICMS. Isso precisa ser considerado. Uma queda na previsão orçamentária, isoladamente, não comprova insolvência nem representa necessariamente um rombo financeiro. Mas o contexto exige uma análise mais profunda. O próprio Roberto Cidade declarou que encontrou o orçamento praticamente comprometido quando assumiu o Executivo. Em outra declaração, o governador mencionou uma queda superior a R$ 695 milhões na arrecadação do primeiro semestre, em comparação com 2025, além de uma frustração de receita superior a R$ 500 milhões em impostos. O problema é que a população precisa conhecer o quadro completo. Quanto o Estado deve? Quanto está empenhado? Quanto está efetivamente atrasado? Quais contratos estão comprometendo o caixa? Qual é o volume de despesas que será transferido para 2027? Essas são informações fundamentais para que Omar Aziz possa iniciar sua administração sabendo exatamente o tamanho do desafio. Fornecedores, merenda escolar e segurança pública: quando a crise chega à ponta A discussão deixa de ser exclusivamente contábil quando aparecem relatos de dificuldades na prestação de serviços essenciais. O ex-deputado federal Marcelo Ramos trouxe questionamentos sobre contratos, pagamentos e prioridades na utilização do dinheiro público pelo governo estadual. Entre os pontos apresentados estão pagamentos superiores a R$ 10 milhões à empresa Azimut Territorial, um contrato de R$ 23,1 milhões relacionado à iluminação de LED e despesas superiores a R$ 95 milhões envolvendo três contratos da Secretaria de Educação. Ramos também divulgou relatos de estudantes de Parintins sobre problemas no fornecimento de merenda escolar e cobrou a atuação dos órgãos de fiscalização. Na segurança pública, também surgiram denúncias sobre atrasos nos pagamentos de empresas responsáveis por serviços relacionados às viaturas policiais, câmeras de monitoramento e sistema Paredão. Fornecedores relataram atrasos de até sete meses em contratos, com risco de comprometimento da manutenção dos veículos e dos equipamentos utilizados pelas forças de segurança. Essas informações precisam ser confrontadas com os dados oficiais da administração estadual. Há ainda relatos atribuídos a fontes internas das corporações sobre dificuldades operacionais, falta de manutenção e combustível. São informações que exigem apuração documental, especialmente porque os profissionais podem temer retaliações ao denunciar problemas internamente.

Não se pode afirmar, sem comprovação, que as viaturas deixarão de circular ou que serviços públicos entrarão em colapso. Mas também não é aceitável que denúncias dessa dimensão sejam tratadas como simples disputa política.

Se há fornecedores sem receber, serviços ameaçados e contratos milionários sendo executados, o governo precisa apresentar documentos, cronogramas de pagamento e justificativas. A prioridade do orçamento público deve ser a manutenção dos serviços que atendem diretamente à população. A estimativa de R$ 10 bilhões não pode ser tratada como um número definitivo. Outro ponto que merece atenção é a estimativa de que o Amazonas pode chegar a uma situação de comprometimento financeiro superior a R$ 10 bilhões. O deputado estadual Wilker Barreto afirmou que o rombo poderia ultrapassar esse valor e estimou que somente as dívidas relacionadas à saúde poderiam alcançar entre R$ 7 bilhões e R$ 8 bilhões. Ele defendeu auditoria nas contas estaduais e revisão dos contratos. Também foram divulgadas estimativas de aproximadamente R$ 10,8 bilhões em compromissos financeiros, envolvendo diferentes obrigações do Estado.

É indispensável, entretanto, separar dívida consolidada, restos a pagar, obrigações contratuais, despesas empenhadas, precatórios e projeções de despesas futuras. Não são conceitos equivalentes e não podem ser somados indiscriminadamente para produzir um único número de rombo. A próxima administração precisa receber um diagnóstico financeiro detalhado, com identificação dos credores, origem das obrigações, vencimentos e disponibilidade de caixa. É justamente por isso que a transição entre Roberto Cidade e Omar Aziz precisa ser transparente. Wilson Lima não pode ser o único responsável, e Roberto Cidade não pode se apresentar como espectador. Aqui está o ponto central da análise. É politicamente conveniente atribuir todos os problemas aos oito anos de Wilson Lima e apresentar a administração de Roberto Cidade como uma gestão que simplesmente herdou dificuldades. Mas essa narrativa tem uma contradição. Roberto Cidade não era oposição a Wilson Lima. Não era um adversário que chegou ao governo para encontrar uma estrutura desconhecida. Era um aliado político, presidente da Assembleia Legislativa e integrante de uma base que sustentou o Executivo durante boa parte desse período.

Quando Wilson Lima deixou o governo, a sucessão foi conduzida dentro de uma articulação política que colocou Cidade no comando do Estado. Agora, diante das dificuldades financeiras, não basta apontar para trás. A gestão Wilson Lima precisa prestar contas dos oito anos de administração. Roberto Cidade precisa prestar contas do período em que presidiu a Assembleia e dos meses em que comandou o Executivo. São responsabilidades diferentes, mas que se encontram no mesmo ambiente político e administrativo. Também não se pode ignorar o fato de que Cidade disputou a eleição de 2026 utilizando a condição de governador e a estrutura política de quem ocupava o Executivo. A tentativa de permanecer no cargo pela via eleitoral fracassou. Ele não chegou ao segundo turno, ficando atrás de Maria do Carmo Seffair, que avançou para enfrentar Omar Aziz. A derrota eleitoral não elimina as responsabilidades administrativas. Pelo contrário, torna ainda mais importante esclarecer o que está sendo deixado para a próxima gestão. O mandato foi curto, mas o conhecimento sobre o funcionamento do governo não começou em maio. TCE-AM e Ministério Público precisam sair da posição de espectadores. A situação exige uma atuação efetiva do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas e do Ministério Público do Amazonas. Não se trata de antecipar condenações ou transformar denúncias em sentenças. Trata-se de verificar documentos, contratos, pagamentos, eventuais favorecimentos, despesas indenizatórias e a execução financeira das secretarias. A Assembleia Legislativa também precisa responder pelo papel que desempenhou. Não é possível que uma instituição responsável por fiscalizar o Executivo atravesse praticamente oito anos de governo sem que a sociedade tenha uma avaliação convincente sobre a qualidade dessa fiscalização. Marcelo Ramos colocou questões que merecem apuração. Outros parlamentares também apresentaram questionamentos sobre contratos e despesas. Agora é necessário transformar as denúncias em procedimentos, auditorias e respostas oficiais. O Tribunal de Contas precisa examinar os números. O Ministério Público precisa verificar eventuais irregularidades. E o governo precisa abrir suas informações. O contribuinte não pode ficar refém de versões políticas enquanto serviços essenciais enfrentam dificuldades. Omar Aziz receberá a conta, mas a responsabilidade tem endereço.

O governador eleito Omar Aziz terá pela frente uma tarefa muito mais complexa do que simplesmente montar secretariado e anunciar prioridades. Precisará reorganizar as finanças, conhecer as obrigações herdadas, revisar contratos, identificar despesas que podem ser reduzidas e garantir que saúde, educação e segurança não sejam prejudicadas. A equipe de transição terá papel fundamental nesse processo. O diagnóstico precisa ser técnico, documentado e suficientemente transparente para que a população saiba o que está sendo entregue. O Amazonas não pode começar 2027 com uma disputa de versões entre quem sai e quem entra no governo. Roberto Cidade precisa explicar o que encontrou, o que fez, o que pagou, o que deixou de pagar e quais compromissos estão sendo transferidos. Wilson Lima precisa responder pelo legado dos oito anos em que comandou o Estado. E a Assembleia Legislativa precisa explicar por que sua função fiscalizadora não produziu respostas proporcionais à dimensão dos problemas que agora aparecem. A crítica que faço é direta: não se pode governar ao lado de alguém durante anos, participar da sustentação política dessa administração e, quando os problemas aparecem, tentar assumir o papel de alguém que apenas recebeu uma herança indesejada. Roberto Cidade teve pouco tempo para governar, mas teve tempo suficiente para conhecer o governo. E, antes de assumir o Executivo, teve anos para fiscalizá-lo. Essa é a contradição política que precisa ser enfrentada. Omar Aziz não pode receber apenas as chaves do governo. Precisa receber a contabilidade real do Estado.

E a sociedade amazonense tem o direito de saber quem tomou as decisões que produziram a situação atual.

Carregar Comentários