O relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, apresentado nesta sexta-feira (27/04) pelo deputado Alfredo Gaspar (União-AL), trouxe conclusões contundentes contra o deputado federal Silas Câmara (Republicanos-AM). O texto aponta o parlamentar como o principal articulador político e beneficiário econômico de um esquema de corrupção que desviou pagamentos de aposentados e pensionistas no Amazonas.
Com mais de 4 mil páginas, o documento pede o indiciamento de Silas e de sua filha, Milena Ramos Câmara, em uma lista que soma 216 nomes. O relator também encaminhou o caso ao Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, recomendando a cassação do mandato do parlamentar.
Fraude contra Pescadores
Segundo a CPMI, o esquema operava por meio da Confederação Brasileira dos Trabalhadores de Pesca e Aquicultura (CBPA). A entidade inseria descontos associativos fraudulentos nos benefícios de 40.054 segurados no Amazonas — incluindo pessoas já falecidas.
A investigação detalha que, entre 2024 e o início de 2026, as entidades apoiadas por Silas desviaram aproximadamente R$ 12,4 milhões de pescadores em municípios como Lábrea, Coari e Itacoatiara. As vítimas, muitas vezes idosos analfabetos que vivem em áreas isoladas, perdiam entre R$ 40,00 e R$ 80,00 mensais sem perceber a fraude nos extratos.
Triangulação Financeira e Papel da Família
O relatório descreve uma “triangulação” para lavar o dinheiro desviado:
1. Os valores saíam do INSS para a CBPA;
2. Parte era transferida para empresas de fachada controladas por Lucineide dos Santos Oliveira (apontada como operadora financeira da Conafer);
3. O montante chegava ao escritório de advocacia de Milena Câmara, filha do deputado, sob a justificativa de “serviços jurídicos”.
Ao todo, o escritório de Milena recebeu R$ 868 mil vinculados ao esquema. A CPMI afirmou não ter encontrado qualquer evidência de serviços prestados que justificassem tais pagamentos. A esposa de Silas, a deputada Antônia Luciléia (Republicanos-AC), também teve suas contas escrutinadas devido ao fluxo de capitais da organização.
Tráfico de Influência em Brasília
A apuração indica que Silas utilizava sua influência na Frente Parlamentar Evangélica e sua base política para “destravar” o sistema do INSS em Brasília sempre que o monitoramento do órgão identificava picos anômalos de descontos e bloqueava as entidades.
”A coincidência entre as decisões favoráveis no INSS e os depósitos nas contas de familiares do deputado Silas Câmara não é fruto do acaso, mas evidência de um esquema de venda de influência pago com o suor dos aposentados do Amazonas”, afirma o texto do relator.
Outro Lado
Em entrevista, o deputado Silas Câmara negou categoricamente as acusações.
“Não tenho nenhuma ligação com isso. Apresentamos toda documentação que prova isso. Estou em paz com isso. É mais uma perseguição política”, afirmou o parlamentar.
Medidas Judiciais
Além do indiciamento por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa, o relatório solicita:
• Bloqueio de bens: De todos os citados no núcleo Amazonas para garantir o ressarcimento das vítimas.
• Projetos de Lei: Sugestões para endurecer a fiscalização de descontos associativos em benefícios previdenciários.
A estrutura das colônias de pescadores no Estado, segundo a CPMI, foi “sequestrada por um projeto de enriquecimento ilícito”.