A presença do senador Omar Aziz (PSD) no ato de filiação do deputado estadual Comandante Dan Câmara ao Republicanos, realizado nesta quinta-feira (19/03), em Manaus, reposicionou o tabuleiro político local a sete meses das eleições de 2026. O evento, ocorrido no auditório Canaã — espaço ligado à Assembleia de Deus no Amazonas — reuniu lideranças políticas e religiosas e consolidou, na prática, um movimento de aproximação entre o senador e uma das bases eleitorais mais organizadas do estado: o segmento evangélico.
Mais do que uma filiação partidária, o ato funcionou como vitrine de alinhamento político. O Republicanos oficializou apoio à pré-candidatura de Omar ao Governo do Amazonas, reforçando o peso da legenda nas disputas recentes. Nas últimas eleições, o partido garantiu representação expressiva tanto na Câmara Federal quanto na Assembleia Legislativa, ampliando sua capacidade de influência no cenário estadual.
Entre os principais articuladores do movimento esteve o deputado federal Silas Câmara, uma das lideranças evangélicas mais influentes da região Norte. Em discurso, ele sintetizou o tom de unidade.
“O Republicanos é o seu partido. Quem apostou contra a nossa união perdeu. Republicanos é Omar Aziz e nós vamos trabalhar juntos para construir o Amazonas forte de novo”.
O gesto tem precedentes e carrega simbolismo. Na eleição passada, Silas Câmara já havia dividido apoio entre Omar Aziz e o atual governador, Wilson Lima, evidenciando a flexibilidade política do grupo religioso. Agora, o novo alinhamento indica uma possível consolidação de apoio, elemento considerado estratégico em um estado onde o voto evangélico tem peso crescente e capacidade de mobilização.
Análise política
Para o sociólogo e especialista em política Luiz Carlos Marques, o movimento precisa ser lido além da superfície.
“No Brasil, e Manaus não foge à regra, a política aprendeu há muito tempo que fé não move apenas montanhas. Move votos. E votos, como se sabe, movem mandatos”, afirma.
Segundo ele, a aproximação entre religião e política carrega tanto ganhos estratégicos quanto riscos institucionais. Entre os pontos críticos, destaca-se o que chama de “erosão silenciosa do Estado laico”, quando decisões públicas passam a ser influenciadas por convicções religiosas.
“O problema não é a fé, é quando ela vira critério de política pública”, pontua.
Marques também chama atenção para a substituição do debate programático por discursos de legitimidade moral.
“Nesse cenário, o eleitor deixa de avaliar competência ou viabilidade e passa a considerar quem parece mais ‘ungido’”, analisa, destacando ainda o risco de relativização do caráter de candidatos apoiados por lideranças religiosas.
Por outro lado, o especialista reconhece o peso estratégico desse tipo de articulação. Igrejas oferecem aquilo que partidos políticos historicamente buscam: capilaridade, engajamento e comunicação direta com suas bases.
“São estruturas organizadas, com liderança definida e um público fiel, no sentido mais literal da palavra. Em tempos de descrença na política, isso vale ouro”, observa.
No caso específico de Omar Aziz, o cenário e o contexto do evento foram determinantes.
“O local da filiação e o público presente não foram meros detalhes logísticos. Foram uma mensagem cuidadosamente construída: força, organização e engajamento. Em política, a forma quase sempre é conteúdo”, completa.
O movimento também revela uma convergência pragmática entre atores de campos ideológicos distintos. Silas Câmara, que já se alinhou ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mantém agora diálogo com um aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), evidenciando que, no campo eleitoral, a lógica da construção de alianças frequentemente se sobrepõe às divisões ideológicas.
Na leitura de Marques, essa dinâmica é parte de um padrão mais amplo. “Como a legislação não proíbe esse tipo de articulação, o movimento é previsível. Quem pode, corre atrás desse eleitorado. Não por convicção teológica, mas por pragmatismo eleitoral, que costuma ser a verdadeira religião da política”, afirma.
Do ponto de vista das igrejas, o apoio também segue uma lógica própria, muitas vezes associada à ocupação de espaços de poder como forma de influenciar a sociedade segundo determinados valores. Nesse contexto, a aliança com candidatos não é apenas estratégica, mas também simbólica.
O resultado é um equilíbrio complexo: de um lado, um Estado formalmente laico; de outro, uma prática política profundamente permeada pela fé. Em meio a esse cenário, a movimentação em torno de Omar Aziz sinaliza que, mais uma vez, o apoio religioso deve ocupar papel central na disputa eleitoral no Amazonas — um jogo onde votos são conquistados tanto nas urnas quanto nos púlpitos.
Unidade entre gigantes: Assembleia de Deus e Universal?

Um dos momentos mais emblemáticos do evento foi o gesto de unidade entre o Comandante Dan Câmara, representante da Assembleia de Deus, e o deputado estadual João Luiz, principal nome da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) no Amazonas. Os dois apareceram de mãos dadas, sinalizando que o Republicanos pode ser a ponte para que Omar Aziz conquiste o apoio das duas maiores potências religiosas do Estado.
Resta saber se essa “paz” entre as cúpulas se manterá até as urnas. Historicamente, as duas igrejas disputam espaço e influência na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam). Com o Republicanos concentrando tantos nomes de peso, a briga interna por cada voto e por cada vaga no legislativo promete ser intensa, já que as bases de fiéis costumam ser o alvo principal de ambos os grupos.