Ponte de R$ 36 milhões cai no Acre dois anos após entrega e coloca obra da gestão Gladson Cameli sob questionamento

Estrutura inaugurada como símbolo de desenvolvimento em Sena Madureira foi interditada pelo próprio Estado um dia antes da queda; quatro pessoas ficaram feridas e perícia vai apurar as causas do desabamento
Redação O Poder
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O desabamento da Ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira, na noite de sexta-feira (5), colocou sob questionamento uma das principais obras de infraestrutura executadas pelo governo do Acre nos últimos anos. Construída com investimento de aproximadamente R$ 36 milhões, a estrutura caiu pouco mais de dois anos após ser entregue à população e deixou quatro pessoas feridas.

A ponte ligava o Segundo Distrito ao Centro do município e era considerada uma obra estratégica para a mobilidade urbana da cidade. O que deveria ser uma solução de longo prazo acabou se transformando em um dos episódios mais emblemáticos da infraestrutura acreana recente.

Além do valor investido, outro fator chama atenção. A curta vida útil da estrutura. Pontes desse porte normalmente são projetadas para operar por décadas. No entanto, a Frei Paolino Baldassari não chegou sequer ao terceiro ano de funcionamento.

 

A ponte e o peso político para Gladson Cameli
O desabamento também tem impacto político porque a Ponte Frei Paolino Baldassari foi uma das obras mais associadas ao governo de Gladson Cameli.

Desde o lançamento do edital, em 2021, até a inauguração da estrutura em 2024, a obra foi apresentada em eventos oficiais como símbolo dos investimentos estaduais em Sena Madureira e da expansão da infraestrutura no interior acreano.

Por isso, a queda da ponte não atinge apenas uma estrutura física. O episódio também atinge uma obra que foi transformada em vitrine administrativa da gestão.

O caso ganha ainda mais repercussão porque ocorre em um momento delicado para o ex-governador. Nas últimas semanas, Cameli voltou ao centro do debate político nacional após condenação proferida pela Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) em processo relacionado a corrupção, organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações. O ex-governador nega as acusações e recorre da decisão.

Embora não exista qualquer investigação que relacione a construção da ponte aos processos envolvendo o ex-governador, o desabamento inevitavelmente amplia os questionamentos sobre uma das obras mais emblemáticas de sua passagem pelo Palácio Rio Branco.

Mais do que discutir responsabilidades políticas imediatas, a queda da estrutura coloca sob análise a qualidade de uma obra que recebeu R$ 36 milhões em recursos públicos, foi entregue recentemente e acabou se tornando um dos maiores constrangimentos da infraestrutura acreana nos últimos anos.

A situação é ainda mais simbólica porque a ponte havia sido anunciada como solução histórica para a mobilidade de Sena Madureira. Pouco mais de dois anos depois, a estrutura que deveria representar desenvolvimento passou a ser lembrada pelo colapso, pelos feridos e pelas dúvidas que cercam sua execução.

Quem são as vítimas

O acidente deixou quatro feridos. O caso mais grave é o de Edinaldo Muniz dos Santos, de 54 anos, juiz aposentado que estava no local realizando uma transmissão ao vivo nas redes sociais para comentar os problemas apresentados pela ponte. Segundo a Secretaria de Estado de Saúde (Sesacre), ele permanece internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Pronto-Socorro de Rio Branco, em estado gravíssimo, após passar por cirurgia para correção de uma fratura pélvica. Ele também sofreu traumatismo cranioencefálico grave e segue sob ventilação mecânica.

Seu irmão, Ednei Muniz dos Santos, de 51 anos, também estava no local e sofreu fratura no antebraço. Ele permanece internado em estado estável e aguarda procedimento cirúrgico.

Outra vítima é Antônio Morais Lima Filho, de 36 anos, que retornava para casa após o trabalho quando ocorreu o desabamento. Ele sofreu fratura no fêmur, está internado em estado estável e também aguarda cirurgia.

Já Weverton Murieta, de 34 anos, que igualmente voltava do expediente, sofreu escoriações e ferimentos leves. Após avaliação médica, recebeu alta hospitalar neste sábado (6).

 

A cronologia da obra
A história da ponte começou em setembro de 2021, quando o governo de Cameli lançou o edital para construção da estrutura sobre o Rio Iaco.

Meses depois, em março de 2022, foi assinada a ordem de serviço para o início das obras. O projeto foi executado pela Construtora Cidade sob fiscalização do Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária do Acre (Deracre).

Na época, o governo informou que a obra teria investimento de R$ 36 milhões e prazo de execução de 24 meses.

Durante a construção, a ponte foi apresentada repetidamente em agendas oficiais como uma das maiores intervenções de infraestrutura do interior do estado. Em outubro de 2023, o governo anunciou que os trabalhos haviam alcançado 90% de execução.

A inauguração ocorreu em 2024 e foi tratada como uma das entregas mais importantes da gestão estadual para Sena Madureira.

 

O alerta ignorado pelo tempo
Na quinta-feira (4), um dia antes do desabamento, o próprio governo do Acre anunciou a interdição total da ponte.

Segundo nota oficial, equipes técnicas identificaram problemas estruturais e recomendaram o bloqueio preventivo para veículos e pedestres enquanto avaliações mais detalhadas fossem realizadas. Menos de 24 horas depois, parte da estrutura veio abaixo.

O fato de o Estado já ter identificado riscos antes da queda amplia os questionamentos sobre quando os problemas surgiram, qual era a gravidade da situação e como uma obra tão recente chegou a esse nível de comprometimento.

 

As perguntas que ficam
Até o momento, o governo não apresentou uma conclusão sobre as causas do desabamento.

A governadora em exercício, Mailza Assis, esteve em Sena Madureira após o acidente, acompanhou o atendimento às vítimas e determinou a abertura de uma investigação técnica para apurar o caso.

Especialistas apontam que estruturas desse porte costumam apresentar falhas por problemas de projeto, execução, fiscalização ou manutenção. A perícia deverá indicar qual desses fatores contribuiu para o colapso.

Enquanto os laudos não ficam prontos, o episódio já levanta um debate sobre a qualidade das grandes obras públicas e a eficiência da aplicação dos recursos investidos.

A principal pergunta continua sem resposta: como uma ponte que levou R$ 36 milhões dos cofres públicos, foi entregue há pouco mais de dois anos e apresentada como uma das principais obras de infraestrutura do Acre chegou ao ponto de ser interditada e desabar em tão pouco tempo?

Essa é a resposta que a população de Sena Madureira e o próprio Estado aguardam das investigações.

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