CPI das ONGs: ‘Cogumelo Yanomami, vendido a 7 euros a grama. Por que a mídia diz que parente tá morrendo de inanição?’

Líder indígena yanomami critica atuação de ONGs em suas comunidades e contesta narrativas da mídia sobre sua situação.
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LEGISLATIVO | Na terceira fase de oitivas da CPI das ONGs (Comissão Parlamentar de Inquérito das Organizações Não Governamentais continuarão), que ocorreu nesta terça-feira (27), no Senado Federal em Brasília (DF), o país pôde conhecer a realidade vivida por povo tradicionais e como eles veem a atuação das ONGs em seus respectivos territórios.

Entre os presentes, estava a liderança do Povo Yanomami, Alberto Brasão Góes (Beto Góes). Ele compareceu a CPI com vestimenta tradicional e sua primeira saudação foi em sua língua, logo em seguida desejando um bom dia aos presentes.

“Senhores, sou Beto Góes, sou Yanomami, eu vim do Amazonas, o nome da minha comunidade é Maturacá no município de São Gabriel da Cachoeira. O meu pai é Júlio Góes, Tuchaua Yanomami, o nosso Cacique é Miguel Figueiredo, Yanomami, o nosso herdeiro, da nossa linhagem tradicional, tribal, filho do nosso finado Cacique Joaquim, grande Pajé. Que o nosso grande espírito o tenha hoje.

Portanto hoje, obrigado Senador, presidente da Comissão, Plínio, o relator, ‘auêi’. Eu quero compartilhar com vocês aqui, que para mim e para o meu o povo Yanomami, no norte do nosso país é indigno o que hoje nós somos submetidos, principalmente pelas ONG, principalmente pelo ISA.

ISA consta como sendo o Instituto Socioambiental. Na página da Organização estão personalidades, entre eles atores, há uma diversidade de fotografias e narrativas a respeito do combate ao garimpo e apoio aos povos tradicionais, contando inclusive na página oficial os povos Yanomami. Porém, Beto Góes se referiu a ONG não como uma parceira que ajuda seu povo.

“Nós Yanomami, não somos serviçais de outro ser humano. Nós não somos um mero ajudante de um outro ser humano, porque nós somos os verdadeiros seres humanos da Floresta. Nós já sabemos como lidar com a nossa Floresta, nós não precisamos que ONGs lá do estrangeiro digam como é que Yanomami vai cuidar da nossa terra, da nossa Floresta, por que nós somos os verdadeiros antropólogos do nosso povo, nós somos os ambientalistas do nosso povo”, disse a liderança indígena.

Em outro trecho de seu depoimento aos presentes na CPI, Beto Góes, mostra conhecimento e desconfiança com a atuação americana junto aos povos Yanomami, ao narrar o extermínio de etnias tradicionais no passado.

“Porque é que ONGs, principalmente americana, (vem) dizer como Yanomami deve viver na grande Floresta. Aqui no Brasil, principalmente é indigno um povo, uma nação, uma civilização que já exterminou os nossos parentes Sioux, o Apache, os outros parente lá da América do norte e querer ensinar o Brasil a dizer como (se) deve cuidar dos povos originários”, falou Beto Góes.

A liderança também faz uma grave denúncia, ao afirmar que estaria sendo vendido um produto se utilizando do nome do tradicional povo indígena. Denominado “Cogumelos Yanomami”, estaria sendo vendido a 7 euros, gerando milhões em lucros que não chegam aos Yanomami.

“Isso para mim é inadmissível, é um crime, é uma ofensa para nós. Hoje a mesma ONG que eu já mencionei, tem um projeto gigante: Cogumelo Yanomami, vendido no exterior o grama do cogumelo a 7 euros. Por que que na mídia tá dizendo que parente Yanomami tá morrendo de inanição? Por que, se existe um projeto que arrecada milhões? É contraditório né!

Tuchauas (se referindo aos líderes no Senado), então eu quero dizer aqui a todos, que nós queremos transparência. Acessou o verba federal, acessou a verba estrangeira, mostra para nós quanto é que nós vamos usufruir daquilo, quanto que vai nos beneficiar, é isso que nós queremos. Chega de Yanomami ser considerado ajudante apenas, principalmente para esta ONG ISA. Chega! queremos autonomia, queremos protagonismo, é isso que nós queremos” concluiu o Yanomami.

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